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  • Ernesto Araújo

Viva a polarização


Toda a realidade, seja humana ou natural, está estruturada de maneira polarizada, com dois polos binários, que se resolvem no logos incarnado. O logos incarnado não é um tertius, nem um termo médio, nem uma solução de compromisso, nem mesmo uma mistura, porém um mistério. Podemos assim falar de uma estrutura ternária da vida e do mundo físico e espiritual, mas não se trata de uma estrutura tripolar, senão sempre bipolar, pois apenas a tensão entre os polos, permite a transcendência por meio do logos – e somente a transcendência da realidade permite a sustentação da própria realidade. Sem o logos, os polos se aniquilariam mutuamente ou se diluiriam em uma massa disforme, o que vem a ser o mesmo. Somente numa estrutura binária e polarizada, graças ao logos, existe energia e matéria, pensamento e emoção. Tudo existe graças ao logos, enquanto princípio mantenedor e também criador. Pelo logos todas as coisas foram criadas, foi ele que as instaurou em sua duplicidade eterna e ele guarda o segredo de sua eterna superação. Criar implica dispersar a unidade indistinta anterior à origem – e o Big Bang constitui, mais do que um fato científico, uma metáfora dessa criação por dispersão da unidade primitiva, que cria a vida e ao mesmo tempo a nostalgia do sono indistinto anterior. O impulso de viver individualmente e o impulso de reintegrar-se ao todo constituem assim a primeira polarização da aventura criada.


A polarização é a forma que a realidade dispersa adquire para chamar de volta o logos. Sem polarização – sempre em dois polos, logicamente – não haveria a possibilidade de um sentido ou de um futuro, haveria apenas uma coleção tautológica de átomos e mônadas irrelacionadas. A polarização permite que a realidade se organize em busca da unidade perdida, mas sem perder sua contradição íntima de querer a unidade do princípio antes do início sem renunciar à existência na história. Tempos aí o ser e o tempo – outra maneira de expressar a estrutura de tudo – onde o logos aparece, na filosofia de Heidegger, sob a figura do Dasein, que é ao mesmo tempo Sein, a unidade primeva, e Da, a situação no tempo-espaço, na história e na dispersão. O homem é esse logos eterno incarnado no precário presente, o que sugere que podemos identificar o Dasein com o Cristo, que se chamava a si mesmo “o filho do homem”, significando talvez a superação transcendente dessa duplicidade entre a eternidade ausente do Sein e a presença dolorosa e exilariante no Da, assim como o filho é a superação transcendente da duplicidade entre a mãe e o pai. (Nessa hipótese, o ser humano se organiza sobre os polos da ausência e da presença, nostalgia e aventura, mãe e pai, para poder dar nascimento ao logos, ao qual cabe então chamar o filho do homem.)


Vemos portanto que é um absurdo enxergar em qualquer aspecto da realidade, inclusive na política, uma situação unipolar ou multipolar. Ambas as expressões não passam de fantasias ou artifícios verbais (mas que, entretanto, involuntariamente criam uma bipolaridade entre, de um lado, a própria bipolaridade, e, de outro, a sua negação sob a forma da unipolaridade ou da multipolaridade).


Na política, o discurso bem-pensante oficial de hoje exige que se condene a polarização. A polarização ameaça destruir a sociedade, segundo esse pensamento, e deve ceder o lugar à moderação centrista, à amenização das diferenças, ao abandono de posições extremas em benefício da unidade.


Quem condena a polarização condena a existência. Condena a história, não enquanto sucessão de acontecimentos, pois esta nada significa, mas a história em termos de destino, que equivale ao que se chama a história da salvação.


Não há nenhuma salvação possível em recusar a polaridade fundamental do universo: daí só decorreria salvação por destruição e indiferença. O espírito humano, assim como toda a arquitetura do cosmo, vive na diferença e da diferença, da diferenciação. Pensar é diferenciar, distinguir, e quem diferencia necessariamente polariza. Ao mesmo tempo, a polarização não é uma simples separação: os dois polos que se distinguem mantêm algo em comum, pois são polarizadamente distintos em função de algum critério que os mantém estruturalmente conectados. A simples separação conduz à dispersão na indiferença, a uma realidade sem nexos e sem pensamento além da mera tautologia. A polarização preserva a realidade organizada em torno de um sentido, permite que todo o cosmo continue comunicando-se consigo mesmo, pensando. Pensar é polarizar, em última instância.


A salvação não virá pousar sobre a indiferença, mas sobre a polaridade.


A polaridade mais dramática é aquela entre o bem e o mal. Bem e mal se distinguem pelo critério mais cortante. Diante desse critério, qual a tarefa do homem, jogado diante do abismo mas que recusa a dispersão na frialdade infinita? Lutar pelo bem. Somente assim pode manter-se a polaridade entre o bem e o mal à espera da salvação. Esse dever de lutar pelo bem constitui talvez o Katechon mencionado por São Paulo na epístola aos Tessalonicenses, a força que retarda o fim dos tempos enquanto não chega o seu sinal.


O mal triunfa se triunfar o mal, mas também triunfa se triunfar a indiferença, a despolarização, a conformidade que descamba para a inexistência. Talvez o mal saiba que jamais triunfará sobre o bem num combate direto, então sua estratégia é pregar a moderação, a pacificação dos extremos. Não vamos polarizar, gente, vamos encontrar um modus vivendi, vamos falar de crescimento econômico, nada de grandes categorias morais.


(Por outro lado, as mesmas pessoas que dizem detestar a polarização querem apelar a um certo moralismo puramente verbal no atual debate político. Sustentam que algumas frases que Bolsonaro pronunciou a respeito de mulheres, gays ou negros, transformam a eleição numa questão moral. O saque da Petrobras, o mensalão, o achincalhamento das instituições, o assassinato de Celso Daniel e a tentativa de assassinato de Bolsonaro, nada disso acaso são questões morais?)


Claro que não há pessoas inteiramente boas e pessoas inteiramente más – embora algumas se esforcem bastante num sentido ou no outro –, mas isso não significa que se deva proibir as pessoas de defenderem o bem se não apresentarem certificado de santidade. Se você chega para tentar impedir uns sujeitos de agredirem uma criança e eles lhe dizem: “mas na semana passada você deu um peteleco na sua irmã”, você recua e admite: “de fato, não tenho direito de intervir”? Se alguns países pretendem organizar através da OEA uma intervenção humanitária na Venezuela, devem deter-se pensando: “ah, mas em 1965 a OEA interveio na República Dominicana lesando o processo democrático daquele país”? Assim nunca ninguém faria nada em defesa do bem, assim o bem desapareceria em favor da moderação, do juízo isento, da cautela. Se as pessoas desejosas de combater pelo bem se acovardarem e se envergonharem porque não são perfeitas, quem lutará? E se, ao levantarem a mão contra o mal virem-se contestadas aos gritos de “Peraí! Não vamos radicalizar! Não vamos polarizar!”, vão recuar?


Os maus querem que os bons não lutem porque não são inteiramente bons. Ou então querem que os bons não lutem para não polarizar. Em qualquer caso, os maus ficam com o terreno todo para eles, pois não têm nenhum problema de consciência, e não precisam de uma situação polarizada, já que o centro moderado é deles e os favorece do mesmo jeito.


Entre saúde e doença deve haver moderação e equilíbrio? Entre a justiça e o crime deve haver paz e união?


Querem uma sociedade sem polos, sem energia correndo. Uma geleia geral de “centro”. O problema é que o centro está dominado pelo complexo liberal-marxista. O centro é o complexo liberal-marxista. O centro defende alguns aspectos de pretensa racionalidade econômica que o fazem parecer liberal e engravatadinho, mas por trás é manobrado pela tirania dos valores esquerdistas que controlam o pensamento das pessoas e as fazem crer que uma frase mal-interpretada sobre mulheres ou gays é mais importante do que a corrupção devastadora ou o crime organizado. A esquerda se dá bem se o poder estiver na esquerda ou se o poder estiver no centro – porque a esquerda enxertou todo o seu marxismo pós-moderno no centro liberal.


(O ateísmo virou centro, enquanto a fé virou extrema direita. Por quê? Desde quando? Por que o ateísmo virou a posição-padrão? Por que o aborto virou o critério para definir se uma pessoa é um cidadão civilizado e racional, se o defende, ou um boçal troglodita, se o rejeita?)


A esquerda não quer polarização porque não quer nenhuma concorrência ao seu polo totalizante, que ocupa todo o espectro do centro moderado até o stalinismo (veja-se, para exemplificá-lo, a perspectiva de uma aliança do PT, cuja candidata a vice-presidente pertence ao PC do B stalinista, com o PSDB liberal reformista, cuja candidata a vice-presidente pertence ao PP, partido herdeiro da ARENA: assim, o centro moderado no Brasil vai de Stalin a Geisel, passando por Lula e FHC). Não há nenhum posicionamento ou proposta do centro moderado que prejudique os interesses da esquerda, nada no centro deixa a esquerda desconfortável. A moderação só favorece o poder dominante: na cultura, na política, na economia, o poder dominante hoje é o liberal-marxismo, que tende à construção de um esquema totalitário se não for combatido mediante a polarização da sociedade.


A condenação da polarização parte do pressuposto de uma equivalência moral entre os polos. Esse pressuposto está inteiramente errado no Brasil de hoje. Há um polo que representa o futuro do país e um polo que representa o crime.

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