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  • Ernesto Araújo

Quando o povo sente


Quando o povo começou a tornar-se um problema para a esquerda, a esquerda começou a chamar os seus inimigos de populistas.


Análises sobre o “fenômeno do populismo” estão agora por toda a parte na grande mídia e nos meios acadêmicos. Veja-se por exemplo esta definição que aparece no livro “El Porqué de los Populismos”*: o populismo “usou todas as ferramentas retóricas destinadas à formação da solidariedade de massa, tais como uma comunicação política baseada nos afetos, nos sentimentos, nas necessidades primárias e numa clara simplificação da mensagem identitária”.


Observe-se incialmente que o chamado populismo é ali considerado apenas um exercício retórico, não lhe sendo atribuída qualquer dignidade de pensamento político consistente. A seguir, repare-se que tal exercício retórico destina-se, nessa linha de argumentação, “à formação da solidariedade de massas”, como se essa solidariedade não existisse antes, como se nada unisse as pessoas naturalmente (pátria, família, fé, história, cultura) e simplesmente chegasse uma retórica tentado criar artificialmente uma solidariedade. (“Acuse-os do que você faz”, velha tática da esquerda, está em ação aqui. Na verdade é a esquerda que, por meio do controle e manipulação da linguagem, isto é, retórica, tenta criar algo inexistente, uma anti-solidariedade, uma não-sociedade fracionada em diferentes grupos sem nada em comum e onde todo mundo passa o tempo todo acusando alguém de algum “ismo” ou “fobia”.)


Por último, veja-se que, nessa concepção, o populismo é algo que apela aos “afetos, sentimentos, necessidades primárias e clara simplificação da mensagem identitária”. Há vários problemas aqui. Primeiro, salta aos olhos a associação implícita entre a ideia de primarismo e os afetos ou sentimentos. Ora, os afetos de sentimentos pertencem ao que há de mais nobre e elevado no ser humano. Um sistema político que se baseie nos afetos e sentimentos parece mais evoluído e respeitável do que um sistema baseado em... em quê? Que fundação pode ser melhor para alicerçar uma sociedade autêntica e saudável do que afetos e sentimentos? O interesse? Uma associação fundada sobre sentimentos não parece mais sólida e capaz de proporcionar sentido e felicidade do que uma associação fundada sobre o interesse?

Depois, o que se entende por “necessidades primárias”. Comer, trabalhar, abrigar-se? Um regime que não atente para essas necessidades não seria um regime frio e desalmado? É isso que os críticos do populismo querem?


E quanto à simplificação da mensagem política, cabe perguntar: a mensagem política do discurso tecnocrático ou do discurso esquerdista, diferentes vertentes do globalismo, acaso é muito sofisticada? O ambiente político produzido pelos partidos e correntes políticas “tradicionais”, ao redor do mundo, concede cada vez menos espaço para a discussão de ideias vivas, para a discussão do que importa mais profundamente às pessoas, do que realmente dói ou alegra, que são os afetos e sentimentos. O que os globalistas denominam “populismo” é uma tentativa justamente de sofisticar e aprofundar o debate político, vinculando-o à integridade do ser humano.


Não há nada mais simplista do que a crítica globalista ao populismo. Essa crítica consegue esconder cada vez menos que, em seu âmago, está uma revolta dos controladores do sistema contra o povo e, mais no fundo ainda, uma revolta contra o sentimento e a vida.


*Fran Carrillo (org.), El Porqué de los Populismos. Barcelona, Deusto, 2017. (Tradução minha)

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