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  • Ernesto Araújo

Psicomaquia


Voltemos ao thymos, que significa: coração, orgulho, coragem, paixão.


Desde o tempo de universidade penso neste fragmento de Heráclito (o número 85 na edição de Diels-Kranz):


Thymoi machesthai chalepón, ho gar an thelei psychês oneitai.


A tradução de que me lembro, na edição dos Pré-Socráticos da Fundação Calouste-Goulbenkian (não estou encontrando o livro, por isso cito de memória) diz:


“É difícil lutar com o coração, pois o que ele quer compra-se a preço de alma.”


A maioria dos comentários e traduções de Heráclito que conheço vão nessa mesma linha. Algumas preferem traduzir thymos por "raiva" ou "ira", o que resulta na obviedade de dizer algo como "olha só, não se deve ceder à ira, porque aí a gente se dá mal". Obviedade não casa bem com Heráclito, de modo que prefiro descartar esse tipo de interpretação.


"É complicado você combater apaixonadamente, pois aquilo que a paixão quer, a alma é que paga." Foi mais ou menos assim que sempre entendi o fragmento, a partir da tradução da Calouste, com a qual concorda igualmente Alexandre Costa(*), que traduz: "É difícil lutar com o coração, pois se paga com alma". Ou seja, a paixão cobra um preço em termos de alma. Na paixão você sacrifica pedaços da sua alma. O coração é um tirano enlouquecido, te lança em aventuras absurdas e não quer nem saber, no final a tua alma é que se estrepa. Mais ou menos assim eu compreendia quando tinha 19 anos, quando achava que os conceitos metafísicos tinham vida e corpo em um drama cósmico e individual muito presente, dilacerante, como voltei a achar.


Mas de um tempo para cá comecei a me perguntar se isto é efetivamente o que Heráclito quis dizer.


A questão é saber o que é thymos, o que é pshyche, e qual a relação entre eles.


Primeiramente observemos que os antigos tinham muito mais imaginação do que nós para falar da vida interior. Além de thymos e psyche tinham também o famoso daimon, tinham o ethos, tinham o pneuma, tinham o noûs e por aí vai. Para nós tudo é mais ou menos a mesma coisa, tudo uma espécie de amálgama indistinto, que tendemos a reunir no conceito de "mente". O máximo que fazemos para sofisticar um pouco é dividir a mente entre consciente e inconsciente, ou recorrer ao velho nome de "psique" ou mesmo "psiquismo", em todo caso evitando injetar aí qualquer transcendência ou mistério. Achamos que a atividade mental esgota a realidade da mente, ou seja, não acreditamos na existência de "algo" que pensa e sente, mas apenas na existência fenomênica dos pensamentos e sentimentos assim soltos, os quais por sua vez se reduzem a impulsos e conexões elétricas. You are your brain, diz o título de um desses livros mecanicistas que se publicam obrigatoriamente às dezenas todos os anos e que as pessoas compram porque os vêem na livraria. (Às vezes acho bom que as livrarias estejam acabando, porque as livrarias ultimamente selecionam e, ao selecionar, endossam o que há de pior na mínima denominação comum do materialismo. Sem livrarias, as pessoas vão chegar aos livros por outros caminhos, e deixarão de ler besteira só porque o livro aparece em destaque numa estante. O cânone materialista implícito que as livrarias aplicam dará lugar à plena liberdade e à livre concorrência das ideias.)


Retomando. Thymos é o coração, para usar essa metáfora que milagrosamente ainda resiste ao tempo. Psyche é a alma. Não sei o que é a alma. Sei que ela está lá. Digamos, alma é aquele negócio que está dentro de você mas que não é exatamente você, embora seja mais você do que você mesmo. É a presença de algo pairando sobre você mesmo, na sua mente. É a porta aberta que você tem para o além. Etc.


Podemos ver no thymos e na psyche dois diferentes aspectos de nós mesmos, antes do que reduzir o thymos a um simples afeto da psyche, como se dá nas interpretações moralizantes onde se lê thymos no sentido de ira. Ou melhor, thymos e psyche surgem como duas diferentes pessoas ou diferentes personagens no drama interior. Uma das visões despersonalizantes do pensamento de Heráclito neste ponto, quase reducionista, parece ser a interpretação de Aristóteles, na Ética a Eudemo, de onde provém o fragmento segundo a edição de Marcel Conche(**). Como dizia um aluno de Harold Bloom, I don’t agree with Mr. Aristotle. A tradução de Conche, que tenta seguir o contexto em que Aristóteles cita o fragmento, me parece simplesmente horrível: “Il est difficile de combattre la colère, car ele l’emporte au prix de la vie.” (É difícil combater a cólera, pois ela vence ao preço da vida.) Ou seja, quando você age com raiva você faz besteira. Para saber disso não precisaríamos de Heráclito nem de Aristóteles, pois não? Nesta banalização completa, Aristóteles está muito mais próximo de nós, a 23 séculos de distância, do que de Heráclito, do qual o separavam apenas 150 anos.


De qualquer forma, em todas essas traduções a alma, psyche, aparece como uma espécie de patrimônio que se vê depredado quando o coração, thymos, resolve sair brigando. Mas qual a alternativa? Não lutar? Lutar sem paixão? E assim deixar a alma intacta? Intacta para o quê? Mas e se alma é um dom que recebemos para ser usado, não para ficar lá parada, esperando?


A questão é também a relação entre machesthai, do verbo machomai, lutar (de mache, luta, que deu o sufixo “maquia” e nos permitiria falar aqui de uma psicomaquia), e oneitai, do verbo oneomai, comprar.


Machesthai. No fragmento talvez mais decisivo de Heráclito, o 53, lemos: polemos panton men pater estin, panton de basileus, kai tous men theous edeixe, tous de anthropous, tous men doulous epoiese, tous de eleutheros. O combate é o pai de todas as coisas, de todas é rei, a alguns faz deuses e a outros faz homens, a alguns escravos e a outros livres. O combate permite distinguir escravidão e liberdade, e portanto liberta, pois somente ao reconhecer a diferença entre servidão e liberdade esta última pode surgir. Mache, a luta, deve entender-se no mesmo contexto de polemos, o combate. O verbo machomai introduz-nos nesse universo da criação e da distinção fundamental operada pelo polemos, a distinção entre escravidão e liberdade, entre o divino e o humano. Mache, polemos, é o que cria e distingue. Então, se você quiser criar, entrar para valer na existência, você vai ter que machesthai, vai ter que lutar. A questão é se vai lutar com o coração, thymoi, ou se vai lutar de outra maneira, sem paixão. Heráclito dá a entender que existe essa opção. Não é propriamente uma opção moral. Heráclito não moraliza. Heráclito diz em outra parte, ethos anthropou daimon (o caráter ético do homem é o seu daimon, o seu eu profundo, o seu self, não existe uma "ética" separada daquilo que você autenticamente e individualmente é). Pode-se portanto lutar com paixão ou lutar sem paixão. Chalepón! Lutar com paixão é difícil, penoso. (Entenda-se que lutar sem paixão é mais fácil.) Mas é aí, fica nisso? Lutar com paixão é difícil porque a alma paga, a luta com paixão sacrifica a alma. Certo. Mas esse sacrifício não será de alguma forma indispensável para o próprio bem da alma? Podemos imaginar que o coração, ao comandar a luta difícil, aparentemente insensata, diferente de alguma espécie de luta fria e racional que Heráclito sugere e não nomeia, está na verdade ajudando a alma, fazendo o que é preciso para que desse polemos resulte a liberdade? Em vez de prejudicá-la, em vez de fazê-la pagar, não estaria o coração sacrificando-se pela alma? Não seria o coração que, em sua luta, compra a liberdade da alma, pagando seu resgate?


Vou assim tentar uma tradução que viola bastante a gramática, mas paciência (é difícil traduzir Heráclito com o coração, mas o que ele realmente diz compra-se a preço de gramática):


“É custoso combater com o coração, mas ele é que resgata a alma.”

(Isto se considerarmos que ho e an thelei são uma interpolação e nos ativermos à versão mais simples da segunda parte do fragmento, gar psyches oneitai, tal como sugerem os filólogos mais modernos.)


Ou então: “É custoso combater com o coração, pois o que ele quer é resgatar a alma.

(Aqui lendo o fragmento tal como aparece em Diels-Kranz).


De qualquer forma, o coração, em seu combate, paga pela alma. A paixão – tal como a paixão de Cristo – paga o resgate da alma sequestrada pelo mal e a liberta.


O Cristo está em toda parte nos fragmentos de Heráclito, quinhentos anos antes de sua vinda, e em outros antigos. Não por acaso o Cristo está sempre associado ao coração, o Cristo padece e luta, o Cristo é o sagrado coração que sofre para comprar a liberdade da alma, mesmo que ela não mereça. Não por acaso se venera o imaculado coração de Maria, que aceita o sofrimento em nome do amor e da salvação. O coração, o thymos, é uma loucura, mas uma loucura que, somente ela, pode redimir e salvar.


Chalepós não é "difícil" tanto no sentido em que um problema de matemática pode ser difícil, porém mais no sentido de uma provação. Pode também significar perigoso ou desafiador, ou ainda doloroso – levando-nos sempre para perto do universo semântico da paixão de Cristo. (Preferi traduzir por "custoso" porque remete à metáfora da compra, que será usada na segunda metade do fragmento pelo verbo oneomai.)


Chalepá ta kalá, conforme Platão. O belo é difícil, o belo se atinge apenas através de sacrifícios e provações. Eis por que Toynbee coloca essa expressão na epígrafe do seu Study of History, onde sustenta que as civilizações se criam e desenvolvem respondendo a desafios, e quando não encontram mais desafios ou recusam os desafios que se lhes aparecem, definham. Quem recusa a luta não está poupando a alma, está perdendo-a, está deixando-a escrava e faltando ao seu dever de combater para libertá-la.


Heráclito, o obscuro, deixa-o muito claro: o coração é o que luta pela alma, em meio às dificuldades e graças a elas.


(*) Costa, Alexandre. Heráclito: fragmentos contextualizados. Rio de Janeiro, DIFEL, 2002.

(**) Conche, Marcel. Héraclite: fragments. Paris, P.U.F., 1986.


Obs.: Preferi aqui não usar sistematicamente os acentos na transliteração do grego. Ficam graficamente pesados e acabam prejudicando a leitura.

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