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  • Ernesto Araújo

Pelo diálogo


Em setembro de 2014, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York, a então presidenta Dilma Rousseff, numa entrevista coletiva de imprensa, teria sugerido que o diálogo era o caminho para enfrentar o Estado Islâmico (que nesse momento estava no auge de seu poder, dominando amplos territórios na Síria e no Iraque e decapitando adoidado).


Assisti agora ao vídeo da entrevista para refrescar a memória e verificar exatamente o que a presidenta afirmou. Devido às conhecidas peculiaridades do seu estilo de expressão, é impossível depreender da sua fala se ela defendeu ou não o diálogo com o ISIS. A imprensa entendeu que sim. No dia seguinte, a presidenta e sua equipe saíram a campo para sustentar que não. Ambas as interpretações são plausíveis.


Mas não importa. O importante é que uma enorme controvérsia nasceu em torno da ideia de manter diálogo com uma entidade terrorista. O escândalo que a interpretação da imprensa causou e a reação indignada e furiosa com que essa interpretação foi negada mostram que um nervo ali foi tocado. A meu ver o problema nasceu do abuso da palavra "diálogo" no discurso diplomático mundial, principalmente brasileiro, levando a presidenta a pensar que "diálogo" é a resposta automática para qualquer situação, convencida de que, quando você diz "diálogo", nunca erra. No caso, errou. É difícil imaginar uma situação onde pronunciar "diálogo" num ambiente diplomático pudesse causar controvérsia, mas a presidenta a encontrou.


O "diálogo" é um dos tantos conceitos que, nesta pós-modernidade, virou um hiperconceito nominalista, uma simples palavra desprovida de praticamente contato com a realidade. A ideia de um "diálogo" com os decapitadores do ISIS causou repulsa indizível justamente porque ainda havia um último fio a ligar a palavra a alguma coisa real, no caso uma realidade tão ofensiva que foi capaz de despertar por um minuto o bom-senso em extinção da imprensa mainstream.


Estamos esquecendo o que significa diálogo, como estamos esquecendo o que significam liberdade, igualdade, democracia, diversidade e muitos outros conceitos que o sistema de despensamento globalista arranca ao mundo real, onde palavras e coisas se confrontam num jogo complexo chamado linguagem humana, para enfiá-los num éter de falso moralismo inquestionável.


Para o sistema, não é preciso discutir o que seja democracia, todo mundo sabe o que significa: significa o que quer que a os administradores do discurso globalista queiram que signifique, de acordo com sua conveniência do momento. Antes, "democracia" significava a vontade da maioria expressa nas urnas. Mas aí, quando a esquerda começou a perder nas urnas, "democracia" passou a significar outra coisa, democracia agora é a ordem liberal internacional, o Acordo de Paris sobre a mudança do clima, etc.


Quando as palavras deixam de estar sujeitas ao teste da realidade, aqueles que detêm o poder sobre a produção do discurso passam a arbitrar seu significado. A bênção da internet é que o poder globalista perdeu o monopólio sobre a produção do discurso e as pessoas podem voltar a discutir livremente, podem comparar palavras e coisas: isso o é o que significa "diálogo".


O diálogo depende do logos. Exige uma disposição sincera de estudar a realidade à luz da palavra, e vice-versa. Diálogo não é simplesmente um sinônimo para conversação, diálogo significa etimologicamente "através do logos", é um caminho através do logos e pelo logos.

O diálogo assim entendido está na origem e essência do pensamento ocidental. Que eram os diálogos platônicos? Exercícios de exploração verbal, nos quais pessoas de boa-fé, conduzidas por Sócrates, procuravam chegar ao sentido íntimo e completo das palavras, para poder pensar a realidade. O diálogo busca encontrar um mundo que não seja regido pelas palavras inquestionáveis, palavras "que todo o mundo sabe o que significam", ou que significam aquilo que os poderosos querem em cada momento. Ou seja, o diálogo busca o oposto do que almejam os nominalistas-globalistas.


Precisamos de muito mais diálogo para chegar a um entendimento sereno e produtivo do que seja democracia, igualdade, liberdade, diversidade e tantos outros conceitos.

Parece haver aí, entretanto, um problema de circularidade. Precisamos do diálogo para encontrar o significado correto e profundo da palavra "diálogo". Só temos palavras para falar de outras palavras em sua relação com a realidade, e se não temos certeza sobre o que as palavras significam, como chegar a terra firme?


Pela luz do espírito. Sem a luz do espírito estaríamos perdidos num labirinto de palavras. Somente a luz do espírito transforma a mera vibração sonora, base física da palavra, numa percepção do transcendente, passando "através do logos", ou seja, instituindo o diálogo.

Por isso o logos (que não é um conjunto de regras abstratas de pensamento, mas algo vivo) está intimamente associado à luz. Diz o Evangelho de S. João, em 1:4: "Nele [no logos] estava a vida, e a vida era a luz dos homens."


A luz é a vida do logos. O logos vive e por isso ilumina. Onde há logos, há luz, o logos é a linguagem ao incorporar a luz não-criada e tornar-se guia do ser humano. As palavras não estão aí para perder-nos, para assujeitar-nos, para determinar como devemos pensar, para obscurecer a realidade atrás de objetivos políticos, mas justamente o contrário, para libertar-nos e capacitar-nos a entender a nós mesmos e ao mundo.


Essa luz é o que nos permite saber que, quando o PT diz que a Venezuela é uma democracia, está mentindo. Sem a luz ficaríamos perdidos num complexo sistema de definições arbitrárias, manipulações semânticas e condicionamentos ideológicos, num oceano de palavras sem lastro real, numa ciranda de distorções, até acreditar nas falcatruas socialistas.


Diz Cecilia Meirelles, no Romanceiro da Inconfidência: "Liberdade, essa palavra... que não há ninguém que explique, que não há quem não entenda." Poderíamos discutir durante séculos o conceito de liberdade e montar toda uma estrutura verbal mostrando que o comunismo é liberdade. Mas quando a luz do espírito penetra, você imediatamente entende o que é liberdade, desabam milhões de páginas de teoria marxista, e a verdade se revela. O homem tem no seu íntimo a capacidade de entender o mundo através das palavras, através do logos (diálogo), não por causa das palavras em si mesmas, mas graças à luz que as penetra.


Dialogar é vivenciar o poder do logos, e não exercer poder sobre o logos pela manipulação nominalista dos conceitos. Quando a luz do espírito abandona a palavra – e esse obscurecimento é o sonho globalista – perdemos tudo e viramos escravos da grande máquina de construção de frases-feitas em que se tornou o discurso oficial do mainstream, um sistema que não permite discutir nada, um sistema que prega o "diálogo" com as ditaduras, mas não aceita dialogar com seus próprios concidadãos, chamando-os a todos de fascistas quando o que eles querem simplesmente é recuperar o sentido profundo e puro de conceitos como liberdade e pátria.


No sistema dominante não há diálogo. Seus adeptos – coisa mais triste – não dialogam nem consigo mesmos. A luz tenta penetrar em suas mentes, valendo-se dos instrumentos mais inusitados, como um discurso de Cid Gomes. Porém, como diz ainda o Evangelho de João: "a luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a compreenderam" (1:5).


Imagem: Platão e Aristóteles em detalhe do quadro La Scuola di Atene, de Rafael.

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