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  • Ernesto Araújo

O povo contra o sistema

Ernesto Araújo


No final dos anos 70 e primeira metade dos anos 80, o debate esquerda-direita no Brasil era um debate político entre liberdade e ordem, onde basicamente a esquerda queria a abertura política com eleições diretas, fim da censura e mais poderes para o legislativo frente ao executivo, enquanto a direita defendia a primazia da estabilidade e a tutela de um executivo forte sobre as instituições e sobre a sociedade civil para evitar a anarquia que levara ao movimento de 1964. Nessa época, quem era de centro defendia maneiras de combinar as vantagens da abertura política com as da estabilidade, acreditando que era possível ter um governo forte para promover "ordem e progresso", e ao mesmo tempo democrático, aumentando a participação da sociedade civil na vida pública, num clima de boa convivência e responsabilidade.

As posições da esquerda prevaleceram com a redemocratização a partir de 1985, mas em função de um amplo consenso social em favor das liberdades políticas, sem demonizar o lado que privilegiava a ordem. O bom-senso e a existência de um amplo espectro de centro permitiram a transição pacífica e ordenada de que nos gabamos.


Na segunda metade dos anos 80, o debate esquerda-direita tornou-se uma questão econômica onde, basicamente, discutia-se a questão de mais Estado ou menos Estado como instrumento de desenvolvimento. De um lado os proponentes de um Estado produtor e regulador da economia, com pesados investimentos públicos mesmo sob o risco de aumento da inflação, e barreiras comerciais altas para promover a indústria doméstica. Do outro lado, os que preferiam retirar o Estado da economia e liberar as forças de mercado para favorecer o crescimento, privilegiavam a estabilidade econômica e o equilíbrio fiscal por sobre o investimento público e advogavam pela abertura comercial. Também neste caso, os dois lados tinham argumentos válidos e permitiam a existência de posições razoáveis de centro que procuravam combinar fatores positivos dos dois modelos.


Já neste debate, foi a direita que prevaleceu, a partir do início dos anos 90 e principalmente depois do plano real, com a adoção de um modelo moderadamente liberal consubstanciado na prioridade da estabilidade macroeconômica, privatizações, abertura comercial. Contudo, da mesma maneira que ocorrera com o triunfo da esquerda no debate anterior, também aqui o triunfo, agora da direita, foi bastante moderado, equilibrado e com colorações centristas. O Estado não se retirou tanto assim da economia (preservou a Petrobras, outras estatais, e conservou enorme capacidade de investir e direcionar investimentos através do BNDES e outros instrumentos), a abertura comercial não foi assim tão profunda, retendo-se instrumentos de proteção tarifária e não-tarifária e mecanismos de política industrial, enquanto a vitória dos proponentes da estabilidade não foi absoluta e deixou muitos bolsões de desenvolvimentismo fiscal.


Assim, nos dois casos, não houve tanto o triunfo da direita ou da esquerda, mas o triunfo de um certo consenso político, pendendo para um lado ou outro mas com flexibilidades e acomodações de todo tipo.


(É apenas curioso observar que a mão política dos conceitos de "liberdade" e "Estado" se inverteu entre os anos 70-80 e 80-90: no debate político dos anos 70-80, a esquerda era fundamentalmente a campeã da liberdade e a direita a campeã do Estado, enquanto no debate econômico dos anos 80-90 a direita tornou-se a defensora da liberdade e a esquerda a defensora do Estado.)


O esquema de poder montado pelo PT a partir de 2002 surgiu daqueles dois triunfos – em sentidos aparentemente opostos – das décadas anteriores. De fato, o triunfo político da esquerda na redemocratização foi capturado e administrado fundamentalmente pelo PMDB, enquanto o triunfo econômico da direita com o Plano Real e outros avanços dos anos 90 foi montado em torno do PSDB. O PT herdou e incorporou a estabilidade política criada pelo primeiro grande consenso e a estabilidade econômica criada pelo segundo, mas passou a controlá-las e aparelhá-las para servir ao seu projeto de poder perpétuo. Na dimensão política, essa reengenharia se deu pela adesão do PMDB – competente gerenciador do complexo e profundo conluio das oligarquias políticas – ao projeto do PT. Na dimensão econômica, o PT manteve a estrutura tucana que permitira a estabilização e cooptou as elites empresariais – já que o triunfo econômico liberal dos anos 90 não chegara nem perto de retirar ao Estado as principais ferramentas dessa cooptação: BNDES, Petrobras, obras públicas. Quando os interesses empresariais se bandearam para o PT, o PSDB perdeu qualquer base de sustentação própria e deixou-se transformar pelo PT numa espécie de oposição doméstica e inofensiva, tarefa tanto mais fácil quanto os próceres do PSDB não tinham nenhuma divergência ideológica frente ao PT, muito pelo contrário.


O PT assumiu assim, sem maior dificuldade, o completo controle do país. Atribuiu ao PSDB o papel de "direita" e governou confortavelmente por 13 anos. O debate esquerda-direita desapareceu, pois a esquerda ocupava todo o espectro político e não parecia haver mais qualquer divergência sobre os rumos do país. Empresários e povo estavam satisfeitos com as benesses que recebiam. (No meu caso, confesso que acreditei que o Brasil havia encontrado a chave dourada que abria a porta tripla da democracia, justiça social e crescimento econômico.) O sistema parecia perfeito e inquebrantável.


Esse regime tão eficiente e popular só se esqueceu de colocar uma coisa em sua equação: o povo. O povo enquanto agente histórico dotado de personalidade e vontade própria. O povo ressurgiu nos protestos de 2013, indignou-se diante da manipulação eleitoral de 2014 e tomou as ruas em 2015-2016 para exigir o impeachment.


O impeachment que o povo queria não era apenas o impeachment de Dilma Rousseff, era a destruição de todo regime de dominação montado a partir de 2002 com suas raízes nos dois grandes consensos dos anos 80 e 90. O sistema político só entendeu, ou fingiu que só entendeu, uma parte do recado do povo e deu-lhe o impeachment em senso estrito, a destituição de Rousseff. O sistema achou que, entregando ao povo a cabeça de Dilma, conseguiria manter o seu próprio poder nas sombras e salvar o principal, o grande esquema que dominava todo o espectro político e controlava a sociedade e a economia há décadas. Formou-se assim um governo composto pelos dois atores secundários do esquema petista, PMDB e PSDB, enquanto o protagonista, o próprio PT, entrava numa espécie de licença sabática para se recompor e voltar mais adiante. (Símbolo claro disso foi a decisão inconstitucional do Senado, na sessão em que votou o impeachment, sob inspiração do presidente peemedebista da casa, de manter os direitos políticos de Dilma).


O sistema achou que o circo do impeachment satisfaria o povo. PMDB e PSDB imaginaram talvez que poderiam ficar como gestores temporários do sistema, dando uma ajeitada na economia até tudo voltar ao normal com a eleição de um deles para a presidência em 2018 ou, melhor ainda, com a volta de Lula.


Mas o povo queria a cabeça do sistema, não apenas de Dilma ou do PT. O povo continuou exigindo a continuação da Lava-Jato e a limpeza do país. A agenda do povo incluía o julgamento e punição de Lula e seu afastamento da vida pública, mas novamente aqui não se esgotava nisso. O povo entendeu que o projeto de poder corrupto era muito mais amplo e profundo, e continuou querendo a aniquilação completa do projeto, não bastando a prisão do chefe supremo.


Dessa agenda do povo brasileiro nasceu a candidatura de Bolsonaro. Todos sabem que Bolsonaro é o único candidato anti-sistema. Mas muitos, principalmente alguns analistas muito sofisticados, não sabem ao certo o que é o sistema contra o qual ele se levanta, como se a postura anti-sistema fosse uma espécie de implicância. Na verdade, sua candidatura é o único projeto político que atende ao anseio mais profundo do povo brasileiro.


Trata-se de uma candidatura de direita, certamente, e não poderia ser de outra forma já que todo o espectro político do sistema foi ocupado pela esquerda. Mas a dicotomia direita-esquerda que se estabelece nesta campanha eleitoral nada tem a ver com os debates direita-esquerda dos anos 70, 80 e 90. A esquerda agora não representa nada, não representa um determinado conjunto de ideias e propostas bem-intencionadas que se possam confrontar com outras ideias e propostas bem-intencionadas de outra corrente. A esquerda só representa seu próprio projeto de poder baseado na gestão do país pelas oligarquias de sempre sob a sustentação de um sistema corrupto de circulação de dinheiro e favores – tendo no horizonte um sonho, nunca abandonado, de socialismo continental bolivariano.


Tudo o que é decente e bom, hoje, está na direita, simplesmente porque a direita é, hoje, o único lugar que acolhe tudo o que é bom e decente. Na direita está o amor à pátria e à família, a fé em Deus, o bom-senso e o entusiasmo, a liberdade para todos e a prisão para os criminosos, a certeza de que as palavras significam algo na realidade e não são mero instrumento de manipulação política, a união nacional, o império da lei, o Estado para garantir a ordem e não para direcionar recursos públicos aos amigos do governante, a igualdade de direitos para todos, a atuação internacional para promoção da democracia por exemplo na Venezuela, um mundo de alegria e orgulho em ser quem se é.


E o que está na esquerda? Esquerda é condenar o sentimento nacional e a família dizendo que é tudo "fascismo" e "patriarcado", esquerda é o materialismo que reduz o ser humano a um aglomerado de átomos, esquerda é liberdade para os criminosos (principalmente o seu grande mestre, Lula) e prisão ideológica ou real para os opositores, esquerda é a obsessão pelo poder a qualquer custo, esquerda é o arcabouço nominalista onde as palavras são transformadas em instrumentos de controle mental, esquerda é um modelo econômico onde o Estado existe para servir os amigos e o capitalismo selvagem para o resto, esquerda são os falsos "valores" controlados pela elite intelectual mal-intencionada, esquerda é a compartimentação da sociedade em grupos antagônicos artificialmente criados, esquerda é bajular descaradamente a ditadura da Venezuela, esquerda é um mundo organizado como permanente militância em favor do ódio e da vergonha. Não por acaso a esquerda se agarra às falsas bandeiras do feminismo, da questão racial e da ideologia de gênero: porque não pode expor suas verdadeiras ideias para o futuro do país.


Nesse quadro, evidentemente, não pode haver centro. O que seria o centro? Um ponto de equilíbrio entre o crime e a justiça? Um modelo que conjugasse as vantagens da corrupção e as da honestidade? Ao contrário dos debates de décadas passadas, desta vez não há um terreno de convergência, não há duas correntes legítimas defendendo alternativas diferentes para o bem-comum. Há simplesmente uma corrente pelo sistema e outra pelo povo (este povo que é muito mais do que a soma de seus indivíduos, este povo no qual corre uma centelha divina). Todos as boas ideias do antigo debate, fossem de esquerda ou de direita, estão hoje do mesmo lado: liberdade política e ordem, liberdade econômica e responsabilidade do Estado, justiça social e eficiência, individualismo e unidade coletiva da nação, todos estão agora deste lado que representa o povo contra o sistema.


A campanha eleitoral mostra-o claramente: os candidatos presidenciais ditos de centro podem até não gostar do PT, mas todos adoram o sistema, e alinham-se, de diferentes maneiras, com a defesa do sistema, contra o único candidato que promete liquidar o sistema. Por isso, muitas pessoas que se consideram centristas e muitos políticos autênticos estão abandonando os candidatos presidenciais ditos de centro e entendendo que a única casa sob cujo teto podem abrigar suas ideias e suas esperanças é a campanha de Bolsonaro.


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