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  • Ernesto Araújo

Nascer


A esquerda (de modo muito claro no Brasil, mas também em outras partes) sabe que está perdendo a luta no terreno político-econômico, devido à sua opção preferencial pela corrupção e à sua incompetência na gestão pública. Diante disso, tenta levar o debate para o terreno da metapolítica e se concentra na pauta do aborto, da "laicidade", da diversidade, da ideologia de gênero, da racialização da sociedade, da imigração irrestrita.


Todas essas bandeiras se conjugam sob o conceito do antinatalismo. A esquerda se define, hoje, como a corrente política que quer fazer tudo para que as pessoas não nasçam. Aborto, criminalização do desejo do homem pela mulher, contestação do "patriarcado" e da diferenciação entre os sexos, desmerecimento da reprodução, sexualização das crianças e dessexualização ou androginização dos adultos, demonização de qualquer defesa da família ou do direito à vida do feto como "fundamentalismo religioso", desvalorização da capacidade gestativa da mulher, tudo isso aponta num único sentido: não nascer. É triste, é difícil de entender, mas não há como não enxergar essa mensagem e objetivo no programa da esquerda.


Já o racialismo – isto é, a divisão forçada da sociedade em raças antagônicas – e o imigracionismo irrestrito convergem para um antinacionalismo completo. O parentesco etimológico entre nascimento (de nasco, nascis, natum) e nação (de natio, nationis) corresponde a um parentesco lógico e sentimental. Nação é uma comunidade de nascimento, um corpo de pessoas nascidas em certo espaço cultural e físico – mais cultural do que físico – e que se ligam através de seus ancestrais também nascidos naquele espaço, bem como aos seus descendentes por nascer, o que proporciona ao conceito um sentido de continuidade no tempo. Existe uma profunda relação natural (de natura, evidentemente também proveniente da mesma raiz nat-) entre o nascimento, fato central na estruturação de uma família, e a nação, uma espécie de família estendida. Isto não implica negar que pessoas nascidas em outro espaço cultural e físico possam incorporar-se a uma determinada nação, mas para tanto é preciso que essa nação exista e possua a autoconvicção de sua existência de maneira a absorver os que nela ingressam – tanto assim que o ato de incorporar um estrangeiro à sua nação se chama ainda "naturalização", o que significa "tornar conforme à natureza", ou digamos "imitar a natureza, reproduzir a natureza", quase como se a pessoa nascida em outro espaço que deseje incorporar-se a uma nova nação tivesse de passar por um novo nascimento ao "naturalizar-se". De tal maneira, não surpreende que uma esquerda antinatalista seja também antinacionalista. Quem é contra o nascimento não quer uma comunidade definida pelo nascimento, não quer nenhum sentimento de destino comum, mas apenas pessoas estranhas que convivem por acaso sem nenhum laço entre cada uma delas e o grupo, e cada vez menos laços delas próprias entre si.


Não esqueçamos que o Deus da fé cristã é fundamentalmente um Deus que nasce, que se incarna em homem, tal como celebramos todos os anos no Natal (de natalis, sempre a raiz nat-), e que ressuscita, ou seja, renasce. Não é um Deus absconditus ou um princípio cósmico. Em sua essência o cristianismo não celebra a justiça ou a igualdade, celebra um nascimento (a incarnação, no Natal) e um renascimento (a ressurreição, na Páscoa). Desse modo, o antinatalismo e o antinacionalismo da esquerda se manifestam igualmente num antiteísmo que não é tanto a negação do divino, mas especificamente a negação do Deus da fé cristã e de Jesus Cristo, ex Patre natum ante omnia saecula.


Assim, em lugar dos tradicionais lemas conservadores do tipo "Deus, Família e Pátria" a esquerda globalista coloca: "Nada, Nada e Nada". Se pelo menos fosse em nome da liberdade, ainda se poderia ver algum valor rebelde e contestador nessas posições – mas a esquerda já não fala em liberdade, pois a liberdade pressuporia a faculdade das pessoas de afirmarem ou negarem Deus, a família e a pátria. Essa tripla negação constitui um programa de domínio, repressão e imposição. Para implementar seu "Nada, nada e nada" a esquerda necessita (ainda) do aparato coercitivo explícito do Estado, ao lado do aparato implícito da moral introjetada em cada um. Todos os "direitos" que conformam a agenda da tripla negação não são direitos, mas apenas obrigações de que alguém faça ou deixe de fazer alguma coisa, até o caso extremo, em que o "direito" da mãe sobre a vida do feto implica a exclusão de qualquer direito para esse ser humano em gestação, principalmente o direito à vida (um enorme retrocesso civilizacional, pois os direitos do nascituro já eram reconhecidos no direito romano).


Eles querem uma sociedade onde ninguém nasça, nenhum bebê, muito menos o menino Jesus. Pergunto inclusive se o sadismo abortista da esquerda não provém de uma pretensão niilista de, em cada bebê, estar matando o Cristo antes de nascer.


(E depois aqueles que rejeitam uma sociedade assim são chamados de obscurantistas!)


Por tudo isso, não basta combater a esquerda no terreno político, é preciso levar o enfrentamento à metapolítica e mostrar a irresponsabilidade da esquerda e sua má-fé na concepção ruinosa que tem do ser humano e de seu destino.


Obs.: A imagem é a tapeçaria Adoration of the Magi, de Edward Burne-Jones.

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