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  • Ernesto Araújo

Maremoto ou Tsunami?


Por Gilsandra Clark


Nos dias anteriores às votações do primeiro turno, para justificar o que a imprensa considerava um súbito crescimento das intenções de voto em Bolsonaro, começou-se a falar em “onda conservadora”, afirmação impressionista, cujo único intuito parecia ser aquele de justificar o porquê das pesquisas políticas não terem indicado dados mais acurados. “Foi a onda!"  " A onda veio muito rápido, e minhas pesquisas ficaram para trás!”  E pior! Não foi qualquer onda, mas uma onda com qualificativos: foi uma “onda conservadora”! Essa “onda conservadora”, há de se imaginar, deve operar por mecânica ainda mais misteriosa, inescrutável e imprevisível, do que uma onda qualquer.

Após a liberação dos resultados, ainda no domingo, já não se falava apenas em “onda”. Agora, segundo a imprensa, e os resultados das urnas comprovavam, assistia-se a um “tsunami”, única imagem que aparentava ser suficiente para definir a extensiva e extraordinária materialização em votos do apoio ao capitão presidenciável e a seu partido. Ocorre que “tsunami” já designa uma onda. Uma onda de grande magnitude, usualmente causada por abalo sísmico, e que não se resume ao poético e normal fluxo e refluxo do mar observado da praia. Bolsonaro sempre foi “tsunami”, desde o início da campanha.

O curioso é que, embora o candidato seja “tsunami”, nunca foi “maremoto”. E isso porque as palavras são entidades que têm vida e evolução própria, estão submetidas a todo tipo de influência social, cultural, religiosa e política, e, às vezes, também morrem. No mundo de hoje, onde as informações e o contato com as mais diferentes nações estão à distância da mais próxima conexão à Internet, os idiomas mesclam-se cada vez mais, em função do poder de influência e da audiência de quem transmite a mensagem, ou por questões etimológicas ou  meramente estilísticas.

No caso do hoje esquecido “maremoto”, o vocábulo vive seus estertores desde o trágico, mortal e devastador tsunami de 2004, quando a mídia adotou de forma unânime o nome de origem japonesa, provavelmente porque boa parte das informações sobre a calamidade chegavam via correspondentes internacionais. Num dia não muito distante, os livros de história brasileiros não mais farão referência, por exemplo, ao “maremoto” que atingiu Lisboa em 1755, com ondas estimadas em vinte metros de altura, mas sim ao “tsunami” que arrasou Lisboa. 

Ainda mais notável que esse processo direto de assimilação é a assunção de novos significados para uma palavra, simplesmente por inexistir vocábulo pronto para exprimir novidades radicais. Nesses casos, quando se depara com uma ocorrência única ou surpreendente, há a tentação de fazer uso de conceitos ou eventos naturais, talvez por considerar-se que acontecimentos singulares de grande repercussão normalmente só encontram equivalência no mundo dos fenômenos físicos. Daí vêm a "onda" e o "tsunami" de Bolsonaro.

Esse tipo de substituição, adaptação, ou mesmo a alteração de significado, não é incomum. Sucedeu, por exemplo, em 1688, quando o Rei Jaime II da Inglaterra foi deposto por parlamentares ingleses que entregaram o trono ao neerlandês Guilherme III, Príncipe de Orange. Até aquele momento histórico, a palavra “revolução” era utilizada para referir-se às revoluções das órbitas celestes, como definidas por Copérnico. O uso do vocábulo com sentido político, como conhecemos hoje, emerge inequivocamente apenas com a Revolução Gloriosa. Antes, revolta era o termo utilizado, e mesmo a insurreição puritana que culminou na execução de Carlos I, na Inglaterra, foi conceituada com Guerra Civil, não revolução.  O nome “revolução” seria consolidado nessa nova acepção, pouco menos de um século depois, desta vez na França, quando Luís XVI, ao ser despertado e informado sobre a tomada da Bastilha, pergunta a La Rochefoucauld-Lancourt, seu camareiro-mor: “Mais c’est une révolte?” E responde La Rochefoucauld: “ Non, Sire, c’est une révolution!” *

Ao longo do século XIX, o marxismo tratará de apropriar-se do termo e de definir o que é ou não uma revolução. A Revolução Gloriosa, por exemplo, e segundo os ideólogos comunistas, não seria uma revolução estritamente falando porque não houve mudança de propriedade dos meios de produção. Haveria ainda uma segunda razão, similarmente grave, para que não se usasse a palavra revolução: a característica não violenta desse evento, inclusive por vezes chamado de “revolução sem sangue”, o que, do ponto de vista tradicional marxista, chega a ser uma contradição em termos. “Sem sangue? Como assim sem sangue?” Pois é. Sem sangue. Em resumo, os marxistas não creem que uma revolução seja possível sem luta armada ou sem que se tenha atingido a hegemonia de pensamento, nos termos definidos por Gramsci.

Curiosamente, no entanto, a força do indivíduo, dos fatos singulares e das mentalidades, elementos desprezados pela historiografia materialista, teima em provocar mudanças radicais e imprevistas. Exceto aqueles que insistem em manter os olhos fechados, os demais assistem, sim, a uma verdadeira revolução, entendida como uma mudança única que poderá levar à irreversível criação de uma ordem política fundamentalmente nova. Há décadas, ou desde sempre, fala-se que nada vai mudar, que o povo nunca vai se mobilizar por questões políticas fundamentais, que nunca será possível alterar significativamente a composição do Congresso, que jamais nos livraremos dos velhos coronéis, que é impossível fazer campanha política sem muito dinheiro, sem arranjos espúrios, sem realizar concessões e sem abrir mão de propostas e de princípios morais e éticos. Infelizmente, para os céticos, a verdade não é meramente uma questão política. Negar o senso comum, negar os fatos, negar a força do indivíduo? Nenhum regime foi capaz de atingir integralmente esse glorioso ápice de aniquilação da vontade e do espírito humano.  

Muitas vezes mantemos aspirações por mudanças, superação e melhorias para todos, mas num ambiente eticamente e ideologicamente conturbado como o Brasil, esse tipo de ideal tornou-se alvo de desconfiança ou zombaria. Até que a vontade de mudança finalmente encontre espaço para se disseminar, e o senso comum prevaleça, pode ser gerado um movimento irrefreável, como o que assistimos nos últimos meses e semanas. Essa mobilização traz a possibilidade de transformações políticas, econômicas e sociais radicais, a possibilidade de finalmente superar a visão do Brasil como mera colônia de exploração, a possibilidade de que cada um possa exprimir diferença e pensamento, sem que todos precisem abrir mão das liberdades civis. Este é o momento que vive o Brasil, o momento da vitória do senso comum. Perdoem-me os marxistas, mas o movimento que Bolsonaro representa não é “onda”, nem “maremoto”. É revolução.

* ARENDT, Hanna - Da Revolução , Ed. Ática/UnB, 2a edição, São Paulo, 1990

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