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  • Ernesto Araújo

Libertar o logos


Estamos quebrando o monopólio do globalismo sobre a palavra.


A verdadeira batalha pelo futuro do mundo não se dá no terreno dos recursos naturais ou do comércio, ou do poder militar, mas no terreno da palavra. A palavra é infinitamente mais poderosa do que as armas ou do que as indústrias ou do que o minério, porque a palavra determina o conteúdo da mente humana. "En archê ên ho logos", como diz a abertura do Evangelho de S. João. No princípio era o verbo, a palavra. Isso não significa apenas que no começo dos tempos estava lá a palavra criadora, mas que a palavra é a força estruturante de todo o mundo e de toda a vida, em cada momento. Archê significa "princípio", tanto no sentido temporal quanto no sentido lógico e vital, no sentido de algo que coordena e organiza e de onde emana toda a realidade.


A palavra, o verbo, o logos é liberdade e luz, o logos faz parte da dimensão divina e o próprio Deus se assume como logos. Prossegue S. João: "Kai ho logos ên pros ton theón, kai theós ên ho logos". E o logos estava junto de Deus, e Deus era o logos.


As forças inimigas, claro, sempre tentaram raptar a palavra, obscurecê-la e pervertê-la. Criaram as "palavras de ordem", criaram ideologias maléficas onde tudo significa o contrário do que deveria ser, assumiram controle do discurso para julgar o que é politicamente correto ou incorreto dizer, criaram uma usina geradora de frases feitas que se espalham pelo mundo matando o pensamento autêntico, conspurcaram a inocência de cada palavra, arrancaram o significado de cada palavra como um coração sangrento num horrível ritual de sacrifício e deixaram apenas o corpo sem vida de conceitos-zumbis. No lugar do significado, coração do logos, colocaram a pedra do direcionamento político, tudo orquestrado rumo ao poder. Popuseram-se a matar o logos, porque o logos é a linha de comunicação entre o homem e Deus.


Estamos vivendo um capítulo decisivo da saga humana em busca da libertação da palavra. Está surgindo uma espécie de Frente Universal pela Libertação do Logos. Estamos numa reconquista. Estamos abrindo as jaulas onde as palavras eram mantidas cativas, famintas de sentido, escravizadas a um projeto de dominação anti-humano. Estamos deixando que as palavras voltem a ter significado e que vivam na realidade do pensamento, na criatividade da alma profunda, que as palavras voltem a ser janelas para imaginar e não correntes para culpar e punir. Estamos libertando os símbolos, as metáforas, estamos permitindo que as palavras – como a palavra "nação" ou a palavra "pátria", entre tantas outras - voltem a expressar esperança e alegria.


A humanidade, por milênios, foi materialmente pobre, sujeita a todo tipo de escassez e doença, sob pragas e tiranias, não tinha antibióticos nem eletricidade, mas sobreviveu e cresceu e produziu obras milagrosas do engenho e espírito – porque tinha o logos. Uma humanidade muda, roubada do logos, pode ter todas as tecnologias, mas não chegará a lugar algum.

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