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  • Ernesto Araújo

Liberdade religiosa, religião libertadora

Gostaria de compartilhar aqui algumas reflexões suscitadas pelo crescente e oportuno debate sobre o tema da liberdade religiosa.


Ao longo de toda a história das explorações e da etnologia, nunca foi encontrada uma única comunidade humana, por mais primitiva e isolada que fosse, que não possuísse as seguintes três características: uma linguagem falada; algum tipo de estrutura familiar; e a crença em alguma realidade imaterial ou espiritual. Língua, família, sentimento religioso: eis os três elementos básicos definidores da espécie humana em sua dimensão social. Nossa época, contudo, acostumou-se a imaginar uma hipotética humanidade pré-histórica vivendo nas cavernas, desprovida desses três elementos, mas que de repente resolveu inventar a fala, os laços familiares e a religião. É mais ou menos a tese de Marx e a de Freud. Porém nenhum dado concreto sustenta as teses pretensamente científicas desses autores sobre o “comunismo primitivo” ou sobre a “horda primeva”. Tanto quanto possamos asseverar, a humanidade nasceu, em algum recanto misterioso da pré-história, já dotada de religião, família e linguagem articulada. Trata-se de características definidoras da espécie, tanto quanto o bipedalismo e a capacidade craniana de cerca de 1.200 cm cúbicos.


Curiosamente, o projeto marxista, sobretudo em sua configuração atual no globalismo, contesta essa tríade humana fundacional. O projeto da esquerda em sua atual metamorfose pretende destruir a família, apagar a religião e controlar a linguagem ao ponto de reduzi-la ao balbucio de frases feitas. Percebe-se nisso a vocação desumanizante do programa esquerdista. A instrumentalização do homem para fins políticos, a escravização do homem, objetivo central da esquerda, requer a degradação da fala, a desestruturação da família e a humilhação da crença. Sem esse tripé, o ser humano se desmonta e cai por terra inerte.


Para humilhar a crença, a ideologia globalista reinante serve-se frequentemente da alegação de que “a religião causa guerras”. Será? Vejamos. As guerras napoleônicas não foram causadas por religião. A guerra civil americana não foi causada por religião. A guerra do Paraguai não foi causada por religião. A primeira guerra mundial não foi causada por religião, nem a segunda. As guerras do Vietnã e da Coreia não foram causadas por religião. Nos últimos 250 anos, os únicos conflitos de grandes proporções dos quais se pode dizer que suas causas residem na religião foram a revolução Taiping na China (onde, entre 1850 e 1864, o líder messiânico sincretista-cristão Hong Xiuquan arregimentou milhões de adeptos e tentou derrubar a dinastia Qing) e a Guerra Cristera no México (na qual, entre 1926 e 1929, os católicos mexicanos se insurgiram contra o governo que procurava reprimir o culto em nome de princípios socialistas). Em ambos os casos tratou-se de movimentos religiosos oprimidos por autoridades não-religiosas. De toda, nota-se que o iluminismo, que triunfou há 250 anos em nome da razão, erguendo-se contra o “obscurantismo” religioso, e começou a dessacralizar ou “desencantar” o mundo (cf. Marcel Gauchet), não livrou a humanidade do flagelo da guerra. Na verdade, a Era da Razão manejou esse látego com muito mais avidez do que a tão desprezada Idade Média.


A religião causa violência? Às vezes causa. Sabem o que mais causa violênciea? Tudo. Viver causa violência. O conflito e a contradição estão na raiz da existência humana (e não só humana). Se nos propusermos a eliminar tudo o que pode causar violência, eliminaremos da vida humana o amor, o orgulho, o sentido de pertencimento a uma comunidade, o desejo sexual, a vontade de realizar, o impulso criador, tudo o que proporciona sentido – pois tudo isso pode, sim, causar violência. A esquerda mantém uma atitude completamente cínica diante da violência. A esquerda denuncia idignada as microagressões escondidas nos pronomes e nas preposições (porque isso faz parte de sua estratégia de desarticular a linguagem), mas cala-se covardemente diante de todas as agressões, assassinatos, torturas, genocídios praticados por regimes de esquerda ao longo da história, praticados até hoje na Venezuela pelo regime Maduro, esse mesmo regime que os partidos do Foro de São Paulo agora correm a defender. Então a esquerda não é, de forma alguma, contra a violência. A esquerda pratica a violência amplamente, sob todas as formas, contra os seus inimigos, enquanto finge um horror hipócrita à violência para desacreditar seus opositores. Por sua vez, a direita não defende a violência. A direita reconhece as contradições humanas e procura combater a violência sem hipocrisia, sem destruir o sentido da existência. (Se não houvesse religião, talvez tivesse havido algumas guerras a menos, mas não teria havido humanidade para lutá-las.)


Se um ato de violência alguma vez cometido em nome da religião invalida toda a religião, por que motivo todos os inumeráveis atos de violência cometidos em nome do marxismo não invalidam todo o marxismo? A esquerda precisa destruir a linguagem para impedir as pessoas de se fazerem esse tipo de pergunta.


O ecumenismo ao estilo “we are the world” constiui um meio mais sutil de combater a religião. Dizer que todas as religiões se equivalem desmerece-as todas. Tentar reduzir as religiões a uma plataforma comum, a um moralismo vago em torno de abstrações como “paz” e “respeito” é um exercício de agressão ao espírito humano e banalização do homem como ser essencialmente religioso. Não existe religião genérica – assim como não existe comida genérica. Se alguém está com fome e lhe trazem um pão, acaso reagirá dizendo: “não, eu não quero pão, quero comida”? Se lhe trouxerem fruta ou carne: “não quero fruta nem carne, quero comida”? Obviamente isso não faz sentido. A comida só existe sob a forma de algum alimento específico. Do mesmo modo, a religião só existe sob a forma de alguma religião específica. Assim, o ecumenismo – na melhor das hipóteses – consiste na redução da religião à moral, ou a uma simbologia de sentimentos morais, mas isso não é religião autêntica. Para mim, por exemplo, a devoção à Virgem é um sentimento pessoal, a experiência de uma presença viva e vivificante, uma realidade, e não o mero apego a um símbolo de pureza ou abnegação.


O diálogo inter-religioso pode ser muito útil e saudável, desde que seja autêntico. Não tenho maneira de explicar a um muçulmano, por exemplo, por que creio que Jesus é Deus (na verdade não tenho como explicá-lo a mim mesmo; uma fé não se entende, não pode ser objeto de compreensão, do contrário deixa de ser fé). Ele tentará argumentar que Jesus foi um grande profeta. Nenhum dos dois conseguirá demonstrar o “erro” do outro, pois aqui não se trata de dois matemáticos analisando uma equação, mas de dois sentimentos completamente distintos. Se eu renunciar a sustentar a divindade do Cristo “para não ofender”, estarei deixando de ser cristão, e aí já não teremos o diálogo entre de um cristão com um muçulmano, mas de um falso cristão, de alguém que ouviu falar de Jesus e acha até que ele existiu mesmo, mas não o tem dentro do coração. Da mesma forma do lado dele: se ele admitir que Jesus é Deus, estará automaticamente deixando de ser muçulmano. O importante, sobretudo, é não conceber esse diálogo como a busca de um mínimo denominador comum – certamente não do ponto de vista dos cristãos. Quando se traça um mínimo denominador comum entre o cristianismo e qualquer outra religião, o que fica de fora geralmente é a divindade do Cristo, ou seja, o cerne da fé cristã, e então na prática esse mínimo denominador é um mínimo que exclui o cristianismo e já não se pode considerá-lo comum.


(Para um cristão de hoje, talvez o diálogo mais importante seja com sua própria religião, com a riquíssima tradição e doutrina que a maioria dos cristãos desconhece. Alguns cristãos sabem tão pouco sobre os fundamentos de sua fé quanto sabem sobre o xintoísmo ou sobre os cultos xamânicos da Sibéria.)


A busca de um mínimo denominador entre as religiões não é um bom caminho – certamente não para os que creem. Todas as religiões pregam a paz? Imagino que sim, de alguma forma. Porém cada uma prega a paz, ou qualquer outra coisa, a partir de uma perspectiva muito distinta da demais (o cristianismo prega a paz a partir da perspectiva de um Deus trinitário, diferente de qualquer outra perspectiva). Para os cristãos a paz de Cristo é a paz de Cristo, não uma paz genérica e descolorida. Outras religiões pregarão a paz à sua maneira.


“Nenhuma religião pode pretender à verdade absoluta”, diz o pensamento polticamente correto. Mas uma religião que não pretende à verdade absoluta não é uma religião, é apenas uma moral enfeitada e não serve para nada. Nossa época politicamente correta construiu um conceito de religião que é fundamentalmente externo, a religião vista pelos ateus, a religião que deixa ao ateísmo a definição dos critérios de verdade, a religião que se deixa julgar pelo ateísmo e recolhe-se obedientemente ao cantinho que o ateísmo lhe reserva.


Hoje no Ocidente e em todo o mundo está crescendo a discussão sobre liberdade religiosa – e é excelente que isso ocorra. Para que a discussão frutifique, entretanto, algumas condições se fazem necessárias:


Primeiramente, que o nosso mainstream cultural ocidental reconheça a religião como algo essencial ao ser humano e admita a religião em termos religiosos, não sob a forma de um mero código moral universalista abstrato.


Segundo, que o cristianismo seja tão tolerado quanto as demais religiões. Hoje, nos países de maioria cristã ou de raízes cristãs nas Américas e na Europa, todas as religiões são toleradas e protegidas, menos a própria religião cristã. Em terra cristã o cristianismo é vilipendiado e humilhado todos os dias, ignorado e desprezado todas as horas. Reduzem a a antiga e infinitamente complexa fé cristã a alguns retalhos da antiga crença, denominados “princípios” cristãos, que nada mais são do que a areia rala que sobra depois que se passa a fé cristã pela peneira do politicamente correto, uma areia inútil que o sistema bem-pensante ateísta guarda cuidadosamente, enquanto joga fora as pepitas de ouro que perfazem a essência da fé. Como culpar aqueles países de maioria não cristã onde os cristãos são oprimidos, se aqui, nos países de maioria cristã, o cristianismo é tão mal tratado? Como exigir que eles não persigam os cristãos, quando nos próprios países da antiga cristandade os cristãos são duramente perseguidos? Será um dever de caridade cristã o de anular-se e renunciar à própria fé até o ponto da apostasia? Será que a única maneira de respeitar o “outro” é rejeitar-se a si mesmo? O Ocidente não será capaz de promover verdadeiramente a liberdade religiosa se não reaprender a respeitar o fenômeno religioso em toda a sua riqueza e profundidade, e especialmente se não reaprender a respeitar o cristianismo, seiva do Ocidente.


Terceiro, que abandonemos a prescrição segundo a qual “não se fala de religião”. Por que não se há de falar de algo tão fundamental para o ser humano? Para “evitar polêmica”? Mas o ser humano é essencialmente polêmico e contraditório, o mundo é polêmico, a natureza é polêmica. Um mundo frio onde não se fala de religião para evitar polêmica é um mundo descaracterizado. Tão ruim quanto proibir a prática da religião abertamente é proibir que se fale de religião “para evitar polêmica”. Somente falando podemos entender melhor a própria religião e a religião dos outros, somente num espaço onde se fala de religião um ateu começará a entender por que tantos milhões de pessoas ainda creem com todas as forças. No meu caso, já fui ateu: mas quando comecei a ler e estudar sobre religião (inclusive, mas não apenas, a cristã), quando comecei a entender, quando comecei a compreender a profundidade do incompreensível, quando um dia li que os monges do Monte Atos eram capazes de enxergar o brilho da luz incriada, foi aí que voltei a crer. Se não se falasse de religião, para evitar polêmica, eu e tantos outros não teríamos tido essa oportunidade. Somente se houver liberdade para falar de religião os ateus terão liberdade para saber o que estão perdendo.


E quarto, que se enxergue no conceito de liberdade religiosa não apenas a liberdade para a prática das religiões mas também a conexão íntima existente entre religão e liberdade – pelo menos no caso da religião cristã. Na fé cristã há algo profundamente, essencialmente libertador, todo o cristianismo é um cântico da liberdade, esse anseio de liberdade que nasceu com o ser humano na profundidade dos tempos. O sentimento religioso se confunde com o anseio pela liberdade, que nasceu junto com a fala e com a família, as quais assim formam, com a religião, uma tríade, uma tríade que talvez não seja ocasional, mas necessária, indispensável, estruturada numa correlação íntima entre esses três elementos, que têm em comum o fato de que todos os três traçam uma linha entre a natureza e o que a ultrapassa, libertam o ser humano da natureza para a transcendência e realizam a transcendência na natureza.

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