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  • Ernesto Araújo

História e Mito


História e Mito raramente confluem.


Estão confluindo.


Mito é a presença do passado, história é a presença do presente, segundo o magistral ensaio do Professor Eudoro de Sousa(*). Mito é um passado permanentemente gerador e inatingível que nos acompanha sem que possamos normalmente tocá-lo. Somos seres históricos e do mito nos separa um abismo, uma distância absoluta, sagrada.


No mito ocorrem os verdadeiros dramas que alimentam o espírito, na história apenas a sequência dos fatos econômicos, jurídicos, sociais. A história transcorre na horizontalidade, o mito ocorre na dimensão vertical. No mito está, se quiserem platonizar, a ideia da história.


Vivemos ao mesmo tempo nas duas dimensões, história e mito. Ou deveríamos viver. Grande parte do empobrecimento do ser humano pós-moderno, da queda vertiginosa dos “índices de desenvolvimento espiritual” (os IDE, que deveriam existir ao lado dos “índices de desenvolvimento humano”, os IDH), deve-se ao fato de que ele fechou-se ao mito. A história não basta. Mesmo a história de cinco mil, de dez mil anos atrás não basta, pois mesmo na distância ela se limita na presença do presente, a história é apenas uma coleção de presentes que não supre a ausência do mito. Você pode traçar uma linha horizontal com a extensão que quiser, mas se não traçar uma linha vertical jamais conseguirá formar uma cruz, e sem a cruz jamais conseguirá definir um centro, o seu próprio centro, conflitivo, único e milagroso.


A aventura humana não se esgota na história, ela exige também o mito – porém perdemos os instrumentos de percepção mítica que nos permitiriam sabê-lo. O “natural” não esgota a natureza, proclama o Professor Eudoro. Apenas a convivência contraditória entre mito e história permite a vida humana em sua plenitude. Essa convivência está representada na cruz, símbolo máximo da contradição criativa do ser humano completo.


“A história dá para tudo”, dizia Machado de Assis. A história não possui em si mesma uma forma nem direção. Aquilo que lhe dá sentido (seja sentido=significado, seja sentido=direção) não é senão o mito.


No Brasil, o mito está tocando a história e fazendo-a renascer. Esse toque é raríssimo e precioso.


Apenas o mito empresta vitalidade à história. O marxismo, que quer encerrar a aventura humana (por saber que nessa aventura o homem acabará encontrando a Deus), odeia por isso o mito, e consequentemente planeja o fim da história.


A “utopia” marxista tem por objetivo eliminar toda as contradições da vida humana, criando a sociedade comunista e promovendo o fim da história. Sim, o fim da história é a uma meta marxista. A globalização triunfante que, no início dos anos 90, proclamou o fim da história, não estava senão enunciando um conceito marxista. Mais do que isto: sem o saber, estava hasteando a bandeira comunista ao mastro de uma nova sociedade universal materialista. (Fukuyama, autor do famoso ensaio e depois livro “O fim da história e o último homem”, sabia, tanto que deixou a porta aberta para a continuação da história através do conceito de thymos, o orgulho, notadamente o orgulho patriótico, segundo ele única força capaz de salvar a história da extinção; e, embora Fukuyama não o diga, o thymos pertence essencialmente ao universo do mito). A globalização hipercapitalista e a utopia marxista se encontram e se amalgamam no conceito do fim da história, no gosto de ambas pelo fim do ser humano, pelo fim da aventura, pelo fim do mito (gosto consciente no caso do marxismo, inconsciente no caso da globalização).


Os marxistas no início detestaram a tese do fim da história de Fukuyama. Demoraram um pouco, mas logo entenderam que a globalização era um maravilhoso atalho para os seus propósitos, e deixaram de ver a globalização como inimiga. Passaram a combater aquilo que Fukuyama identificava como único perigo de reinstauração histórica e mítica, o thymos, principalmente sob a forma da nação e do sentimento nacional.


Mas no Brasil, como em outras partes, o mito reacendeu a história.


A bandeira nacional é seu símbolo. A bandeira nacional é a membrana onde o universo mítico e o universo histórico se tocam e se reconectam. Essa bandeira volta a tremular, volta a verticalizar-nos, devolve-nos à aventura. No ponto único que ora vivemos, história e mito se cruzam, nos restituem um centro, nos enchem de sentido.


(*) Eudoro de Sousa, História e Mito. Brasília, Editora da UnB, 1981.

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