Search
  • Ernesto Araújo

Falsas aspas, falsos modelos


A revista Época em sua versão online trouxe ontem uma matéria assinada por Guilherme Amado sob o título “Ernesto Araújo nega aquecimento global: ‘Fui a Roma em maio e havia uma onda de frio’”. O texto afirma que, numa reunião que promovi anteontem, 2/8, com os diplomatas da Secretaria de Assuntos de Soberania e Cidadania (SASC) do Itamaraty, eu disse o seguinte: "Não acredito em aquecimento global. Vejam que fui a Roma em maio e estava tendo uma onda de frio enorme. Isso mostra como as teorias do aquecimento global estão erradas" [com aspas no texto da matéria].


A seguir alguns comentários e esclarecimentos:


1) Não pronunciei a frase que me é atribuída entre aspas. O uso de aspas em matéria jornalística indica o caráter textual de uma afirmação. Ademais, na matéria a frase é introduzida pela expressão “disse Araújo” e seguida pela expressão “contou”, indicando claramente que se trata de citação textual, sem deixar qualquer margem à interpretação de que esse seria simplesmente o teor geral de uma determinada fala. No caso, a afirmação colocada entre aspas não corresponde nem ao conteúdo literal nem ao teor geral do que eu disse. Essa falsa atribuição me parece extremamente grave do ponto de vista da ética jornalística.


2) Tenho realizado uma série de encontros no Itamaraty, reunindo em cada um deles todos os diplomatas de cada uma das sete Secretarias em que se divide o Ministério, desde os colegas recém-egressos do Instituto Rio Branco até os mais antigos com mais de trinta anos de casa. A reunião com a SASC foi a sexta dessa série. Em cada uma delas tenho discorrido brevemente sobre as diretrizes de política externa na área da respectiva Secretaria e escutado colegas da área, procurando sempre responder a dúvidas e explicar o por quê de várias mudanças de posicionamento que estão em curso, num espírito de orientação mas também de discussão e troca de ideias. Esse esforço de reunir-me com todos os diplomatas da Casa, em atmosfera de transparência e abertura, nunca foi feito por um Ministro das Relações Exteriores e tem sido, creio eu, valorizado pelos diplomatas.


3) Só tenho a lamentar que um funcionário anônimo haja desrespeitado a minha confiança e se dirigido à imprensa após a reunião com a SASC para relatar mentirosamente minhas palavras. A lamentar igualmente que um jornalista profissional se atreva a citar entre aspas uma afirmação cuja textualidade não pode comprovar.


4) Naturalmente não me lembro palavra por palavra do que falei durante a reunião, e não houve gravação do encontro para que possa conferi-lo. Entretanto, sei perfeitamente que não afirmei o que a Época “relata”. Eu disse basicamente que existe, no tratamento das questões do clima, um viés de confirmação (confirmation bias): a partir de uma convicção de que existe um sério processo de aquecimento global, qualquer fenômeno específico que pareça comprovar essa convicção, como um recorde de calor em algum lugar, tende a ser amplamente reportado, ao passo que um fenômeno que pareça desmenti-la é rejeitado e não aparece com destaque na mídia. Não mencionei nessa ocasião o exemplo específico do frio que caracterizou o mês de maio de 2019 em Roma. Usei esse exemplo recentemente em algum outro evento. Assim, a pessoa leviana que levou a “notícia” ao jornalista inconsequente misturou propositalmente coisas que ouviu em momentos diferentes e me atribuiu, de maneira maldosa, um raciocínio falacioso que jamais sustentei.


5) O que é a teoria do aquecimento global? A tese de que o mundo está passando por um processo de aquecimento em ritmo alarmante devido ao aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera, aumento esse causado pela ação humana. Dessa teoria decorre a percepção generalizada de que precisamos “salvar o planeta” principalmente reduzindo as emissões de CO2 oriundas de atividade humana.


6) O Acordo de Paris nasceu dessa percepção. O Acordo consiste basicamente num conjunto de compromissos voluntários de cada país para a redução de emissões de CO2. Os compromissos volutários do Brasil (apresentados em 2015) consistem no objetivo de reduzir as emissões de CO2 do país em 37% a partir dos níveis verificados em 2005. Isso se considera “redução absoluta”, em contraste com outros países que se comprometeram a diminuir apenas o ritmo de aumento das emissões. O objetivo brasileiro de redução de emissões só pode ser atingido mediante a redução drástica do desmatamento, que é grande emissor de CO2.


7) Existem elementos científicos capazes de colocar em questão a teoria do aquecimento global. Há indícios de que a teoria é falsa. E há insuficiência de indícios de que a teoria seja verdadeira.


8) O principal teste da teoria do aquecimento global reside nos modelos matemáticos rodados por computador. Cada modelo consiste basicamente em certas suposições quantitativas sobre o comportamento da temperatura média da terra em função da concentração de CO2 na atmosfera. Cada modelo resulta na previsão de um certo comportamento da temperatura com base nas concentrações atuais de CO2. Existem cerca de 102 modelos desse tipo, desenvolvidos por diferentes grupos de pesquisadores. Dos 102, apenas um tem conseguido prever o comportamento real da temperatura. Todos os outros 101 prevêem um aumento da temperatura maior do que aquele que tem efetivamente ocorrido. Estando praticamente todos os modelos errados, é lícito supor que a temperatura da terra não varia em função do CO2, ao menos não da maneira suposta pela teoria.


9) A temperatura média da terra tem-se elevado desde cerca de 1976, com altos e baixos. O ritmo de aumento da temperatura nesse período foi de 0,13 grau centígrado por década.


10) Os dados de temperatura tornaram-se confiáveis sobretudo a partir de 1979, quando começou sistematicamente a medição de temperaturas por satélite. Mesmo assim, há lugar para questionamento dos dados utilizados. Em certas regiões oceânicas, por exemplo, ainda se utiliza a medição por amostragem da temperatura da água da superfície do mar.


11) Para trás, os dados são menos confiáveis, pois dependem de estações meteorológicas que eram naturalmente raras no passado e muito concentradas na Europa e América do Norte. Assim, quando se fala nas temperaturas do Século XIX, por exemplo, é preciso ter em conta que esses dados se baseiam nas medições de um punhado de estações meteorológicas com má distribuição geográfica. Para datas mais antigas, a medição se baseia fundamentalmente em “proxies”, isto é, fenômenos naturais que permitem inferir a temperatura do passado remoto, como a espessura dos anéis do tronco das árvores ou a composição química das camadas de gelo mais profundas em locais onde o gelo se acumula há milênios, como a Groenlândia. Se os dados de 1979 para cá são disputáveis e sujeitos talvez a manipulações, o que dizer dos dados de temperatura anteriores à existência de termômetros?


12) Tanto quanto se pode saber, infere-se que a temperatura da terra oscilou entre fases de aquecimento e esfriamento ao longo dos últimos 12.000 anos, desde a última era glacial. Houve provavelmente uma idade de aquecimento nos últimos séculos antes de Cristo e primeiros séculos da era cristã, conhecida como o “período de aquecimento romano” porque coincide com o apogeu do império romano. Depois uma idade de esfriamento até cerca do século IX. A seguir uma idade de aquecimento até o final do século XIII conhecida como “período de aquecinento medieval” (quando possivelmente a temperatura média foi mais elevada do que a atual). Veio então a “pequena idade do gelo”, período de esfriamento que durou até a metade do Século XIX. E desde meados do Século XIX até hoje vivemos nova era de aquecimento. Dentro deste período tivemos, no Século XX, um subperíodo de aquecimento, entre 1910 e 1945, um subperíodo de esfriamento entre 1945 e 1976, e um subperíodo de aquecimento, de 1976 até hoje.


13) No âmbito das negociações climáticas que levaram ao Acordo de Paris, fala-se sempre no objetivo de manter o aumento da temperatura em no máximo 1,5 ou 2 graus centígrados acima dos “níveis pré-industriais”, ou seja, acima da temperatura média ao redor de 1850. Ora, naquele momento o mundo estava saindo da “pequena idade do gelo”, ou seja, a base de referência que se tomou como a "normalidade" climática é uma das eras de temperaturas mais baixas nos últimos 12.000 anos, o que faz as temperaturas de hoje parecerem comparativamente bastante quentes. Mas absolutamente nada indica que as temperaturas prevalescentes em 1850 fossem as temperaturas "normais", nem que fossem as ideais para a vida humana, ou para a natureza. Trata-se de uma escolha de linha de base completamente arbitrária, inclusive porque o incremento das emissões industriais de CO2 no Século XIX era ainda muito pouco significativo e não se lhe poderia atribuir a "culpa" pelo início do período de aquecimento. Além disso, é lícito observar, como curiosidade, que nos últimos 2.000 anos, grosso modo, os períodos de aquecimento foram mais favoráveis à civilização humana (auge do império romano, época carolíngia e das catedrais, desenvolvimento acelerado a partir da revolução industrial) do que os períodos de esfriamento (“idade das trevas” nos primeiros séculos da Idade Média, era de pestes e guerras no final da Idade Média e início da Idade Moderna).


14) Saber se a era de aquecimento atual é ou não sem precedentes depende fundamentalmente de alguns “proxies” de temperatura do passado remoto, de confiabilidade muito relativa. Evidentemente não se pode atribuir, por exemplo, o período de aquecimento medieval às emissões industriais de CO2, e por essa razão os cientistas que propugnam pela teoria do aquecimento global antropogênico (produzido pelo homem) tendem sempre a desmerecer ou tentar contestar a existência daquele período medieval.


15) O comportamento de vários fenômenos climáticos e desastres naturais não sustenta a teoria do aquecimento global, ao contrário do que se propala na mídia. Não se verifica, por exemplo, aumento na força acumulada dos ciclones tropicais (furacões e tufões) ao redor do mundo, nem no número de furacões, nem nas áreas atingidas por secas. Muito já se disse também que a neve desapareceria das latitudes médias, na Europa por exemplo, devido ao aquecimento, mas a área coberta por neve no hemisfério norte vem aumentando ligeiramente desde os anos 1960.


16) Também há fenômenos que parecem confirmar a teoria do aquecimento global, como a extensão declinante da calota polar ártica em anos recentes. Mas aqui estamos novamente diante de um problema de confirmation bias: enquanto a diminuição do gelo ártico aparece em todos os jornais, a extensão crescente das áreas cobertas por neve no hemisfério norte ou o número estável de furacões não aparecem em nenhuma parte.


17) O aumento médio do nível dos oceanos é pouco superior a 3 milímetros ao ano ou 3 centímetros por década. Não é um ritmo alarmante. Em alguns lugares esse ritmo é maior e certamente gera preocupações, mas não configura um fenômeno planetário. Há inclusive hipóteses de que, parcialmente e em alguns lugares, o aumento do nível do oceano pode dever-se ao afundamento de terras e não à elevação do nível das águas.


18) A produção e a produtividade agrícola global estão crescendo, portanto não se pode alegar que o aumento de temperaturas no ritmo atual impacte negativamente a agricultura. A produção mundial de cereais passou de 2,09 bilhões de toneladas em 2001 a 2,90 bilhões de toneladas em 2016, um aumento de 38%, ao mesmo tempo em que a área mundial dedicada à agricultura manteve-se praticamente a mesma (na verdade diminuiu ligeiramente) passando de 37,5% da superfície total de terras em 2001 para 37,4% em 2016, segundo dados do Banco Mundial.


19) Também se deve ter presente que o CO2 ou dióxido de carbono não é propriamente um poluente. Não é tóxico nem prejudicial à saúde humana ou animal, mesmo em concentrações muito mais altas do que as hoje existentes na atmosfera, e é muito benéfico às plantas. Não deve ser confundido com o CO (monóxido de carbono), que é letal, nem com outros gases ou com metais pesados provenientes de emissões veiculares ou industriais, prejudiciais à saúde. Sua consideração como poluente decorre unicamente de seu alegado impacto nas temperaturas.


20) Dezenas de reputados cientistas questionam, de diferentes maneiras, a teoria de que o mundo se encontra num processo de aquecimento sem precedentes e catastrófico originado pelo aumento de emissão de dióxido de carbono proveniente da atividade humana. Convido quem quiser aprender a respeito a pesquisar a obra de Richard Lindzen, Roy Spencer, Roger Pielke Jr., Nir Shaviv, Patrick Michaels e vários outros climatologistas que denunciam a insuficiência científica da teoria do aquecimento global antropogênico. (Não entrarei aqui na questão das motivações políticas por trás do alarmismo climático, mas essa área de estudo também é fundamental.) Convido também à leitura da série de livros Climate Change Reconsidered, publicados pelo Heartland Institute, muitos dos quais disponíveis no site do instituto (www.heartland.org), onde também há dezenas de videos muito úteis. Sugiro a leitura de Climate of Extremes e outros livros de Patrick Michaels; Climate Change: The Facts, editado por Alan Moran; A Disgrace to the Profession, de Mark Steyn; e The Great Global Warming Blunder, de Roy Spencer, entre outros.


21) No Brasil, temos o privilégio de contar com o trabalho absolutamente fundamental do Professor Ricardo Felício sobre o tema. Veja-se por exemplo sua recente apresentação no Senado Federal: https://www.youtube.com/watch?v=cJYn7qdyuy4


22) Ter dúvidas sobre o embasamento científico da teoria do aquecimento global não implica abandonar o Acordo de Paris. Certamente não é o que o Brasil deseja. O Acordo está lá, e como qualquer acordo deve ser cumprido de boa-fé por todas as suas partes (pacta sunt servanda). O que não se pode é viver num clima inquisitorial onde qualquer contestação científica da teoria do aquecimento global é demonizada e enseja “ameaças” de retaliação comercial. Nada no Acordo de Paris – ou em qualquer outro acordo vigente – autoriza as partes a implementar sanções comerciais ou quaisquer outras sanções destinadas a coibir a discussão científica das bases da teoria do aquecimento global.


23) Do mesmo modo, questionamentos à base científica da teoria do aquecimento global não implicam de forma nenhuma o propósito de desmatar. O controle do desmatamento tem mérito em si mesmo, independentemente de aderir-se ou não à teoria do aquecimento global. A preservação florestal é obviamente fundamental para a biodiversidade, para o regime de chuvas, etc. Assim, os compromissos voluntários do Brasil ao amparo do Acordo – redução drástica de emissões por meio da redução do desmatamento (pois o corte de árvores e queima de madeira emite grandes quantidades de CO2 acumulado nas plantas) – são independentes do que se considere a respeito da sustentabilidade científica de teoria do aquecimento global.


24) O Brasil está comprometido com a preservação e melhoria da qualidade ambiental em todas as suas vertentes. Mesmo que a temperatura média da terra comece a esfriar (o que pode ocorrer), continuaremos trabalhando contra o desmatamento ilegal, a favor da qualidade do meio ambiente urbano, pela despoluição dos oceanos, etc.


25) Sim, em maio fazia muito frio em Roma!

11,071 views18 comments

© 2023 by The Book Lover. Proudly created with Wix.com