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  • Ernesto Araújo

A Nação está voltando


Estado não se confunde com Nação.


Reduzir ou diluir a Nação no Estado é talvez o grande problema da vida política pós-moderna em que estamos imersos.


Essa diluição ou subordinação da Nação ao Estado ganhou inclusive uma dimensão gráfica, com o hábito de escrever "Estado" com maiúscula e "nação" com minúscula. Não há razão para elevar assim o Estado a uma categoria semelhante a Deus, também escrito com maiúscula embora não seja um nome próprio (se bem que podemos discutir longamente se "Deus” é o nome de Deus, se Deus é um indivíduo ou um gênero, se a palavra "Deus" significa o mesmo para um cristão ou para as pessoas de outras fés, etc.)


De fato, não há por que endeusar o Estado e deixar a nação lá pobrezinha com sua inicial minúscula. Se um dos dois merecesse maiúscula, seria antes a Nação do que o estado. Entretanto, para preservar o paralelismo e facilitar a confrontação dos dois conceitos, podemos manter aqui a grafia "Estado", porém guindando a Nação ao mesmo patamar maiúsculo.


No mundo sempre houve Nações e sempre houve Estados, mas durante milênios ninguém parece haver-se preocupado muito em distingui-los porque a distinção era mais ou menos óbvia (na medida em que algo pode ser óbvio nos negócios humanos). Nação era um povo que se sentia povo, um sujeito histórico frente a outros sujeitos históricos, diferente dos demais povos.


Estado era a organização política de uma autoridade soberana que governava um povo, ou vários povos, ou parte de um povo e parte do outro. Não havia uma relação necessária entre um Estado e uma Nação. Sabemos que (pelo menos segundo a historiografia corrente) essa relação biunívoca somente começou a afirmar-se no Século XVII e demorou ainda bastante tempo para universalizar-se, até completar a volta ao mundo no Século XX, quando se tornou inquestionável que cada Estado corresponde a uma Nação e cada Nação a um Estado. O famoso Estado-Nação, claro.

O problema é que o conceito e a prática do Estado-Nação passaram a funcionar unicamente a favor do Estado e contra a Nação.


É como se os dois tivessem formado uma sociedade com 50% cada um, mas em algumas décadas o Estado passou a perna na Nação e ficou com o controle integral. O Estado usurpou a Nação. O Estado deveria ser para promover e proteger os interesses da Nação, mas há muito já não se limita a esse papel. O Estado tentou açambarcar a Nação. Para o Estado a Nação se tornou um incômodo, uma espécie de peso morto, uma avó meio louca que o Estado ainda sustenta a contragosto, trancafiada no sótão entre quadros de velhas batalhas e crônicas empoeiradas de reis esquecidos, à qual o Estado presta homenagem apenas no discurso (a palavra "Nação" tornou-se uma mera figura de retórica, um jeito mais rebuscado de dizer "país", numa esfera semântica onde todo mundo sabe que quem manda mesmo é o Estado), mas à qual jamais presta ouvidos.


Na prática, o Estado já ficou com tudo. Aquilo que era a Nação virou a "sociedade civil", como uma espécie de concessão do Estado para poder dizer que ele não esgota a realidade. "Sociedade civil" é a forma pasteurizada, domesticada da Nação. É como o estado chama a Nação, para circunscrevê-la ao seu lugar subserviente. Nenhum povo se chama a si mesmo de "sociedade civil", ninguém abre os olhos de manhã pensando "vou lutar pela minha sociedade civil".


O Estado se adonou do prestígio da palavra Nação e tudo o que ela evoca. A entidade criada para garantir a paz mundial se chamou ainda a Organização das Nações Unidas. Se fosse hoje, talvez não lhe dessem esse nome, não precisariam mais do prestígio e brilho que a Nação conserva. A Nação era uma espécie de padrão-ouro da política, uma realidade concreta, historicamente enraizada, incorruptível como o ouro, contra a qual se media o Estado, papel-moeda que só valia porque se sabia que atrás havia a Nação pulsante. A partir de algum momento, ficamos só com o papel-moeda, só com o Estado, circulando num oceano de valores abstratos, onde ninguém mais procura saber se algo real e firme está por trás.


A Nação vivia no coração dos homens, o Estado vive somente em suas cabeças.

O desaparecimento quase completo da Nação e o triunfo do Estado, eis a história dos últimos 70 anos.


Mas o Estado não se deu tão bem assim. O ápice de seu triunfo coincidiu com o início de sua obsolescência. Ao instalar-se a globalização dos anos 90, os programadores do sistema (não sei se eles existem enquanto indivíduos, ou se o sistema se autoprograma) refletiram e disseram: "Bom, já acabamos com a Nação. Será que precisamos ainda do Estado?" Ali, a globalização econômica, que ansiava pelo fim de quaisquer barreiras, inclusive estatais, à livre alocação mundial de recursos, convergiu com o velho objetivo marxista de empurrar o mundo para o último estágio da "evolução" da humanidade, o comunismo, definido como a sociedade sem Estado. Imagine there's no countries: essa canção assombrosa de John Lennon tanto pode ser o hino da hiperglobalização econômica quanto o hino do marxismo em seu "sonho" comunista.


O globalismo tinha planos de acabar também com o Estado, após dar cabo da Nação. Não por acaso ou por implicância. É que o Estado ainda guarda, em alguma gaveta, uma cartinha ou um broche de sua avó maluca, a Nação. O Estado ainda tem uma pequena fresta aberta para o sentimento nacional. O Estado tem um quê de poder transcendental, dele ainda emana algo de uma dimensão que vai além da coerção e taxação, o Estado ainda faz as pessoas acreditarem em algo além do próprio Estado – do contrário não se sustentaria.


O globalismo surgiu quando alguém entendeu que o consumismo era o melhor caminho para o comunismo. Quando o objetivo de um mundo sem quaisquer fronteiras para o comércio e os investimentos tornou-se o projeto de um mundo sem quaisquer fronteiras ponto, um mundo onde desapareceria o Estado e se instalaria o totalitarismo mais completo, o totalitarismo que teria destruído até mesmo o poder estatal, frágil fio de Ariadne que ainda ligava a humanidade à transcendência.


Pois essa marcha da desumanização está parando. Surgiu uma força que a detém. Essa força não é outra senão a Nação. A velha Nação desceu do sótão, rejuvenescida, quando ninguém mais esperava, e está rompendo o sistema redondinho do globalismo pós-nacional e pós-estatal. A Nação devolve a esperança de uma humanidade autêntica, conectada consigo mesma, livre do materialismo primário, livre do nominalismo exterminador do pensamento.


De quebra, a Nação pode salvar também o Estado da irrelevância a que o globalismo o destinava, se o Estado conseguir voltar a ser o defensor fiel da Nação.


A história não acabou, como queriam os globalistas de toda estirpe. A Nação, e com ela a história, está voltando.


Imagem: Doña Juana la Loca recluida en Tordesillas con su hija la Infanta Catalina, de Francisco Pradilla y Ortiz. Museu do Prado, Madrid.

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